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19/09/2021

Sant Jordi e a origem catalã do Dia Mundial do Livro

Sant Jordi e a origem catalã do Dia Mundial do Livro

A publicação deste terceiro artigo, intitulado “Sant Jordi e a origem catalã do Dia Mundial do Livro“, é mais um fruto de um acúmulo de horas de pesquisa, de dedicação à responsabilidade de mostrar as raízes, e não apenas a copa da árvore. Aproveitamos este início para agradecer aos que têm lido nossos textos, e desejado conhecer um pouco mais sobre a Catalunha.

Em nossas duas primeiras publicações, apresentamos aos brasileiros, portugueses e demais falantes de língua portuguesa um pouco sobre as origens de Sant Jordi na Catalunha, costumes e um dos símbolos: a rosa. O outro símbolo do dia de São Jorge na Catalunha é o livro. E é precisamente o 23 de abril o Dia Mundial do Livro.

Nesse dia, é bastante comum o lançamento de novos livros, sejam de autores mais conhecidos, sejam de autores que acabam de iniciar sua trajetória literária. Tendas de livros, autores presentes, pessoas comprando e presenteando. Essa é a copa da árvore que havíamos mencionado, mas esta publicação quer mostrar as raízes, tanto as belas quanto as feias.

Primeira publicação: Lenda e tradições de Sant Jordi na Catalunha

Segunda publicação: As rosas de Sant Jordi na Catalunha

O que a História Mundial da Catalunha conta sobre 1926?

História Mundial da Catalunha é uma obra de 950 páginas que reúne alguns dos fatos da Catalunha que tiveram projeção internacional, e outros que tiveram influência externa. Entre os 124 temas tratados no livro, um deles é dedicado ao ano de 1926. O texto, escrito pelo historiador Manuel Llanas, discorre sobre como o dia de Sant Jordi passou a ser associado aos livros, e explica como o Dia Mundial do Livro está associado à Catalunha.

A ideia de um livreiro para um dia dedicado ao livro

Em 1923, um livreiro de València, chamado Vicent Clavel i Andrés, fez a seguinte proposta à Câmara Oficial do Livro de Barcelona: dedicar um dia do ano ao livro. Clavel, naquela época, residia na capital catalã, onde administrava a editora Cervantes, com obras em língua espanhola. Entre 1918 e 1923, Clavel trabalhou como conselheiro da Câmara Oficial do Livro de Barcelona.

A sugestão de Vicent Clavel foi registrada na Memória da Câmara daquele ano desta forma: “Dia do Livro Espanhol. Outra iniciativa do nosso zeloso companheiro Dom Vicent Clavel: dedicar um dia de cada ano a celebrar a Festa do Livro Espanhol. Este projeto exemplar foi enviado para análise e está pendente de uma decisão“.

Essa ideia de Clavel demorou quase três anos para ter uma resposta. O livreiro, nascido em València, não apenas desejava um dia dedicado ao livro. Ele queria, também, que esse dia fosse o 7 de outubro, suposta data do nascimento do escritor espanhol Miguel de Cervantes.

A resposta ao projeto de Clavel foi positiva: a Câmara Oficial do Livro levou a proposta de Clavel ao órgão do governo (espanhol) a que era submetido, o Ministério de Trabalho, Comércio e Indústria. Esse órgão governamental era liderado por Eduard Aunós.

_ Comentário: as informações acima foram coletadas do texto publicado no livro História Mundial da Catalunha. Entretanto, as informações finais, referentes ao Ministro Eduard Aunós, não foram aprofundadas (possivelmente pelo motivo de a obra ser dedicada, em primeiro lugar, aos leitores catalães, que supostamente sabem quem era Eduard Aunós). Entretanto, a fim de explicar aos leitores de língua portuguesa o contexto daquela época, o Aqui Catalunha investigou mais identidades, como a de Eduard Aunós.

Quem foi Eduard Aunós?

Eduard Aunós, nascido no território catalão de Lleida, exerceu alguns cargos políticos antes de ser nomeado, em 1924, sub-secretário do Ministério de Trabalho, Comércio e Indústria do governo espanhol. A nomeação ocorreu em um ano já marcado pela Ditadura de Primo de Rivera. Em 1925, foi nomeado Ministro, cargo exercido até 1930.

O ano de 1930 representou o fim da Ditadura de Primo de Rivera, e antecedeu o da proclamação da Segunda República Espanhola. Com essa proclamação, Eduard Aunós tomou a mesma atitude do até então rei espanhol, Alfonso XIII: abandonou a Espanha.

Vale a pena ler: 90 anos da Proclamação da República Catalã por Francesc Macià

Após abandonar a Espanha, Eduard Aunós se vinculou ao partido de extrema-direita e monárquico Renovación Española. Além disso, em 1935, publicou o livro A Reforma Corporativa do Estado, inspirado no sistema corporativista típico do regime fascista italiano. Mais à frente, de 1943 a 1945, Aunós foi nomeado Ministro de Justiça do governo franquista.

A aprovação da ideia de Vicent Clavel por Eduard Aunós

Após essa exposição sobre Eduard Aunós, pode-se entender, com mais nitidez, o porquê de a Câmara Oficial do Livro de Barcelona encaminhar a sugestão de Vicent Clavel como sendo “uma iniciativa pelo Dia do Livro Espanhol”. E, como não poderia ser de outra maneira, o órgão acima da Câmara Oficial do Livro, liderado por Eduard Aunós, aceitou a ideia do livreiro. Em 6 de fevereiro de 1926, por meio de um decreto real, foi oficialmente aprovado o dia 7 de outubro como sendo o da Festa do Livro Espanhol.

A primeira Festa do Livro Espanhol ocorreu em 7 de outubro de 1926. Na Catalunha, apesar do impulso de instituições culturais e políticas, a celebração teve um cunho mais popular, diferentemente do visto em Madrid, onde houve atos acadêmicos e solenes para celebrar o dia. E foi justamente na Catalunha onde o evento prosperou.

Celebrar um evento como esse no mês de outubro acabou não sendo a melhor ideia. Conforme descreve o historiador Manuel Llanas, no livro História Mundial da Catalunha, “após cinco edições do evento dedicado ao livro, os profissionais ligados à organização da festa propuseram mudar a data”. Uma das razões indicadas era que, em outubro, as condições climáticas não eram as ideais para um evento como aquele, ao ar livre. Assim, propuseram uma nova data: 23 de abril, dia do falecimento de Miguel de Cervantes.

De acordo com o historiador Manuel Llanas, uma nota jornalística na época aplaudiu a mudança assim: “Espera-se que a próxima festa seja celebrada em 23 de abril e, coincidindo com a de Sant Jordi, terá um esplendor maior, e será uma verdadeira festa do livro catalão“.

Conforme explicado em História Mundial da Catalunha, vários grupos catalanistas, no século XIX, já consideravam o dia de Sant Jordi como um “dia patriótico e de denúncia contra o centralismo e autoritarismo espanhol”. Esse simbolismo se tornou algo oficial durante o mandato do presidente Francesc Macià, que declarou o 23 de abril como o Dia da Bandeira Catalã, e como o dia “da festa cívica e feriado para todas os órgãos públicos da Catalunha”. A partir desse momento, os livros em catalão começaram a recuperar protagonismo, com autores que assinavam exemplares de suas obras em livrarias e tendas ao ar livre.

Por outro lado, a Câmara Oficial do Livro de Barcelona, submetida ao Ministério de Trabalho, Comércio e Indústria do governo espanhol, continuava a promover o evento festivo com referências a livros escritos em espanhol e, sempre que possível, sobre Espanha e a língua espanhola.

_ Comentário: o último parágrafo é o fechamento da explicação sobre como os livros passaram a fazer parte das comemorações de Sant Jordi na Catalunha. Poderíamos parar por aqui, já que, até o momento, já foram escritas quase 1200 palavras, com muitas informações e referências. Entretanto, o último parágrafo representa, também, uma pesquisa paralela feita pelo Aqui Catalunha sobre a língua catalã durante os anos da Ditadura de Primo de Rivera e dos anos da Ditadura de Francisco Franco. Dessa forma, os próximos parágrafos, além de serem um fruto de muita investigação, é uma reivindicação pelo respeito às diversidades, como a diversidade linguística.

O que os fundos do Arquivo Nacional da Catalunha nos mostram?

O Arquivo Nacional da Catalunha é o órgão público que preserva o patrimônio documental catalão. Em seu acervo, existe um guia do fundo documental dedicado à Câmara Oficial do Livro de Barcelona. Durante nossa pesquisa inicial, vimos como essa entidade, que funcionou de 1918 a 1942, era submetida a um Ministério do governo espanhol, contextualizada pela Ditadura de Primo de Rivera. Assim, resolvemos investigar essa Câmara, e encontramos evidências que mostram até que ponto a língua catalã era alvo de uma preconceito ferrenho por parte dos defensores da língua espanhola. Mais que isso: até que ponto a língua catalã era considerada uma forma de delito.

Para melhor apresentarmos as informações, trouxemos traduções diretas de fragmentos desse guia do fundo documental, além de imagens de alguns deles.

Reconhecimento oficial da Câmara por meio de uma ordem real

“Em novembro de 1918, uma real ordem reconhece a sua oficialidade sob a denominação de Câmara Oficial do Livro e, no ano de 1922, a partir da criação da Câmara do Livro de Madrid, passou a denominar-se Câmara Oficial do Livro de Barcelona, com juridição nos territórios da Catalunha, Ilhas Baleares, Castelló e València.” (página 1 do Guia do Fundo, na seção Contexto – História dos Produtores).

Funções da Câmara

“As suas funções, fixadas pelos Estatutos e Regulamentos, eram a promoção dos interesses da indústria e comércio do livro, propondo ao governo as reformas que considerasse necessárias; a melhora do regime da propriedade intelectual; a representação dos interesses dos seus associados e a resolução em julgamentos arbitrais das diferenças que pudessem surgir entre eles; a formação de estatísticas de produção, exportação e importação da indústria e comércio do livro; a colaboração na fixação do preço do papel editorial; a criação de bolsas de trabalho intelectual; a publicação de bibliografias espanholas e americanas; a perseguição contra a competição ilícita…” (página 2 do Guia do Fundo, na seção Contexto – História dos Produtores).

Relação cronológica dos documentos do fundo

A seguir, algumas imagens dos fragmentos presentes no guia do fundo documental, que mostram como a língua catalã e a Catalunha eram relegadas a um plano inferior em relação à língua espanhola e à Espanha:

Dossiê sobre a “Conferência Nacional do Livro”, organizada em Madrid

 

Dossiê sobre a Exposição do Livro Espanhol, em Lisboa, 1931

 

Dossiê sobre a Exposição do Livro Espanhol, em Miami, 1931

 

Dossiê sobre a Exposição de Artes e Produtos Espanhóis, em Tampa (Estados Unidos), 1931

 

Resposta da Câmara ao questionário enviado pela Federação Nacional Fascista Indústria Editorial sobre a situação da indústria e do mercado do livro na Espanha

 

Dossiê sobre uma proposta à Câmara para que as filiais dos bancos espanhóis em Paris exponham livros espanhóis

 

Dossiê sobre o projeto de construção de um monumento a Cervantes em Barcelona

 

Contrato de aluguel na Avenida Generalíssimo Franco para os escritórios da Câmara. Vale a pena mencionar que essa avenida é a atual Avinguda Diagonal, que teve seu nome alterado para Generalíssimo Franco durante a ditatura franquista. Antes do período franquista, havia tido outros nomes, relacionados a contextos e personagens históricos.

 

Dossiê sobre a expurgação e fechamento de livrarias de segunda-mão pelo regime franquista

 

Dossiê sobre a proposta de colaboração de La Hoja Literaria-Revista Centroamericana para impulsionar o livro espanhol na América

 

Um dossiê sobre a atuação do regime franquista, que ordenava a confiscação de obras consideradas marxistas, pornográficas e em língua catalã

 

O reconhecimento internacional

Em 15 de novembro de 1995, a UNESCO declarou, por unanimidade, que o dia 23 de abril passaria a ser o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais. O presidente da UNESCO naquela época era um catalão, Federico Mayor Zaragoza, nascido em Barcelona.

De acordo com a documentação do livro História Mundial da Catalunha, a iniciativa de Federico Mayor Zaragoza teve apoio do Grêmio de Editores da Catalunha, da Federação de Grêmios de Editores da Espanha, do governo catalão, do Centro UNESCO da Catalunha, de grêmios de editores de outros países e da União Internacional de Editores, que realizou seu 25º congresso em Barcelona (1996).

Referências bibliográficas:

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