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01/08/2021

Vilaweb: história de sucesso do jornalismo em língua catalã

Vilaweb: história de sucesso do jornalismo em língua catalã

O jornalismo em língua catalã não pode ser entendido sem a contribuição de Vilaweb, cuja história de sucesso começou em 1995, com o nome Infopista. O portal tem uma peculiaridade presente em poucos diários digitais informativos da Catalunha: suas publicações são escritas, exclusivamente, em catalão (vale a pena mencionar a sua versão em inglês, com notícias menos frequentes), à diferença de portais como La Vanguardia e El Periódico.

Este artigo do Aqui Catalunha é voltado, acima de tudo, para os leitores de língua portuguesa, inglesa e espanhola. O público que possui a língua catalã como nativa, e exerce o seu uso diariamente, sabe o que representa Vilaweb, e encontrará poucas surpresas na versão em catalão deste texto (traduzida por métodos automáticos). Posso afirmar que Vilaweb é a maior referência para o Aqui Catalunha em termos de rigor jornalístico. Por isso, este portal busca aprender com os líderes da informação na Catalunha, enquanto continua a fortalecer a sua identidade e presença no mundo de língua portuguesa.

Neste 15 de maio de 2020, a primeira pàgina de Vilaweb na Internet completa 26 anos, e o Aqui Catalunha apresenta ao seu público uma pequena biografia do portal dirigido por Vicent Partal.

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Um dos primeiros diretórios locais do mundo, e o primeiro em catalão

Vilaweb é sinônimo de pioneirismo. A página original de Vilaweb data de 15 de maio de 1995, mas foi publicada, oficialmente menos de um mês depois, em 14 de junho. Durante o primeiro ano, o portal era conhecido como La Infopista, a rodovia catalã, um nome representado graficamente, no logotipo, por meio de cruzamentos de pistas e placas com nomes de lugares dos territórios de língua catalã, comumente conhecidos como Países Catalães.

Infopista

O projeto Infopista foi concebido para ser um diretório de todas as páginas em catalão que existiam na Internet. Precisamente, 120. Os líderes eram Vicent Partal, Assumpció Maresma e Joan Subirats (criador do logotipo, e falecido em 1997). La Infopista foi um dos primeiros diretórios locais do mundo, e o primeiro em catalão. Em sua versão original, havia tópicos sobre Ciência e Ensino, Comunicação, Cultura e Língua, Economia, Esportes, Computadores e Internet, Política e Governo, Sociedade, Turismo virtual e Universidades.

Em reportagem publicada na revista Capçalera, em março de 2010, a editora e cofundadora de Vilaweb, Assumpció Maresma, disse que a ideia inicial era “criar um diário digital de notícias em catalão, independente e de qualidade”, mas isso “não poderia ser feito com os meios tradicionais”, relembrou.

Antes de fundar La Infopista – Vilaweb, Assumpció Maresma (1956), foi diretora da revista El Temps, entre 1992 e 1995, que teve como um dos cofundadores Vicent Partal, em 1983. Segundo Maresma, a Internet representou uma “oportunidade”, aproveitada pelos dois jornalistas. A editora também destacou o pioneirismo de Partal: “Percebeu que o mundo da Internet seria importante para o futuro da informação“.

Vicent Partal (Bétera, País Valenciano) nasceu em 1960, e é o responsável pelos editoriais do portal, normalmente publicados de segunda a sexta. Em seu site próprio, Partal escreve que “sempre diz o que pensa, e assume as consequências“, uma frase que pode ser vista perto de seu nome, nas publicações editoriais em Vilaweb. O valenciano trabalhou em El Temps, El Punt, Diari de Barcelona, Catalunya Ràdio, TVE, La Vanguardia, entre outros meios de comunicação.

Considerado “um dos pioneiros da Internet nos Países Catalães”, Partal criou, em 1994, o primeiro sistema informativo na Internet dos Países Catalães e de toda a Espanha, chamado El Temps Online. Atualmente, além de escrever em Vilaweb, colabora, semanalmente, com o portal basco (e unicamente escrito em língua basca) Berria. Partal, entre numerosas atividades jornalísticas e editoriais, que podem ser vistas em seu currículo, escreveu os livros “Catalunha na estratégia militar do ocidente”, “A revolta nacionalista na URSS”, “Catalunha 3.0”, “Jornalismo quântico”, “Nova homenagem à Catalunha”, entre outros.

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Cronologia de Vilaweb: os primeiros anos do jornalismo de primeira classe em catalão

Em abril de 2013, Vilaweb publicou uma revista (de publicação mensal) dedicada aos 18 anos do portal. A homenagem foi estruturada em forma de cronograma, não apenas da existência de Vilaweb, mas, também, de fatos que marcaram a Internet e o mundo informativo na Catalunha e no mundo. Para esta publicação do Aqui Catalunha, apresento um cronograma dedicado, exclusivamente, aos fatos mais importantes que marcaram os primeiros anos de Vilaweb, da Internet na Catalunha e do mundo virtual global.

  • 1º de março de 1995: o diário Avui se torna o primeiro de todo o Estado espanhol a ter uma web. No mês de maio, foi a vez de El Periódico.
  • 1º de abril de 1995: 1.200 centros públicos de ensino primário e secundário na Catalunha passam a se conectar à Internet.
  • 15 de maio de 1995: Vicent Partal e Assumpció Maresma lançam Vilaweb (ainda chamada de La Infopista, que não era um diário digital de notícias, mas sim um diretório de todas as páginas e recursos em catalão na Internet; em novembro, o diretório reunia 500 delas).

Curiosidade: na reportagem para a revista Capçalera, em 2010, Assumpció Maresma disse que, apesar de o primeiro nome do diário ter sido La Infopista, a vontade real era que fosse chamado Vilaweb. A editora explicou que o nome ‘Vilaweb’ se referia a uma “comunidade que estava sendo criada, com uma ideia de povoado, vila…”, e que “havia a vontade de conectar, religar as coisas que já existiam”. De modo semelhante, mas em referência à catalanidade e ao papel do mundo digital, Vicent Partal, em entrevista a Núvol, em 2015, disse que “a Internet é a grande ferramenta de articulação entre os Países Catalães”.

  • 1º de julho de 1995: surge a livraria Amazon.com, a primeira a vender, exclusivamente, pela Internet.
  • 1º de setembro de 1995: a Bolsa de Barcelona, assim como a Bolsa de Madrid, se torna a primeira na Europa a ter conexão com a Internet.
  • 11 de janeiro de 1996: criada a empresa editora de Vilaweb: Partal, Maresma e Associados.
  • 15 de maio de 1996: La Infopista, com mais de 1.500 páginas indexadas, passa a ser conhecida como Vilaweb.
  • 3 de junho de 1996: o Parlamento da Catalunha aprova uma resolução sobre a criação de um domínio próprio e diferenciado para os servidores de Internet na Catalunha, o .ct.
  • 4 de julho de 1996: surge o servidor gratuito de correio eletrônico Hotmail.
  • 1º de setembro de 1996: o escritor Jaume Fuster, presidente da Associação de Escritores em Língua Catalã (AELC) lança a web da entidade, inicialmente hospedada no servidor partal.com.
  • junho de 1997: Vilaweb estabelece suas primeiras edições locais.
  • setembro de 1997: Catalunya Ràdio começa a transmitir programas, ao vivo, durante todas as horas do dia.
  • setembro de 1998: surge o navegador Google.
  • outubro de 1998: Vicent Partal coordena a primeira pós-graduação em Jornalismo Digital da Universidade Ramon Llull.
  • março de 1999: a Internet passa a ter dois milhões de domínios registrados.
  • 5 de novembro de 1999: Vilaweb inaugura o primeiro serviço com tecnologia WAP (Internet para celulares), o primeiro do grupo das línguas românicas.
  • fevereiro de 2000: Vilaweb recebe o prêmio Cidade de Barcelona de Jornalismo.
  • 25 de março de 2000: fundada a Associação de Professores de Informática da Catalunha.
  • novembro de 2000: Vilaweb passa a oferecer correio eletrônico gratuito.
  • março de 2001: surge o projeto catalão de Wikipedia, o Viquipèdia.
  • 11 de setembro de 2001: os ataques terroristas colapsam os grandes portais de notícias norte-americanos.
  • novembro de 2001: diários comarcais como El Punt e Diari de Tarragona passam a ter presença na Internet.
  • dezembro de 2001: criada campanha para que o MSN tivesse uma versão em catalão. Entretanto, a versão em língua catalã foi lançada apenas em 2008.
  • novembro de 2002: Vilaweb recebe o Prêmio de Honra Jaume I por ser o diário em língua catalã mais lido na Internet.
  • fevereiro de 2004: Vilaweb é considerado o principal portal de notícias em catalão e o quarto mais lido na Espanha, segundo estatística anual de AIMC-EGM.
  • fevereiro de 2004: lançada campanha para criação do domínio .cat.
  • janeiro de 2005: a BBC inclui o catalão na seção de línguas europeias de seu site.
  • fevereiro de 2005: surge a plataforma de vídeos YouTube.
  • 22 de maio de 2005: Vilaweb publica seu livro de estilo, escrito por Jem Cabanes. Trata-se do primeiro livro de estilo de um meio de comunicação digital publicado.
  • fevereiro de 2006: a ICANN concede o domínio .cat para a comunidade de língua catalã.
  • janeiro de 2007: Steve Jobs e a Apple lançam o iPhone.
  • outubro de 2007: lançado o portal edu3.cat, com materiais didáticos produzidos pela TV3, Catalunya Ràdio e Departamento de Educação do governo catalão.
  • dezembro de 2007: estreia do portal 3cat24.cat, um espaço de informação contínua da TV3 e Catalunya Ràdio.
  • 16 de dezembro de 2007: a Microsoft lança a versão em catalão do Messenger, por meio do programa Windows Live.
  • 19 de fevereiro de 2008: a Grande Enciclopédia Catalã passa a ser de acesso livre.
  • junho de 2008: a tradução voluntária de centenas de usuários permite que o Facebook tenha versão em catalão.
  • outubro de 2008: o Consórcio pela Normalização Linguística e o Instituto Ramon Llull apresentam o portal de aprendizagem de catalão parla.cat.
  • novembro de 2008: Vilaweb recebe o Prêmio Atlântida do Grêmio de Editores da Catalunha.
  • fevereiro de 2009: superados os 35 mil domínios .cat registrados na Fundação puntCAT.
  • fevereiro de 2009: o serviço de correio eletrônico Hotmail incorpora a língua catalã.
  • março de 2009: o governo da Catalunha inaugura sua conta no Twitter.
  • abril de 2009: a rede de editores independentes edi.cat apresenta os primeiros livros digitais em catalão.
  • abril de 2009: Vicent Partal recebe o Prêmio Joan Coromines por sua trajetória jornalística.
  • julho de 2009: Google Books estreia versão em catalão.
  • setembro de 2009: Vilaweb publica vullvotar.cat para apoiar a consulta pela independência da Catalunha em Arenys de Munt, e outras que viriam depois.

Informação mais relevante: o site vullvotar.cat foi censurado pela Justiça espanhola. Por isso, quando vocês clicarem nele, verão esta mensagem: “Este domínio foi interceptado, e está à disposição da Autoridade Judicial”. A censura desse site é apenas uma do grande número de censuras que caracteriza a repressão espanhola contra a Catalunha desde 2017, em sua tentativa de eliminar o movimento independentista catalão.

Vale a pena ler: Relatório do governo da Catalunha sobre as consequências do referendo de 2017

  • fevereiro de 2010: em estudo anual de AIMC (Associação para a Investigação de Meios de Comunicação), Vilaweb foi reconhecido como o meio de comunicação na Internet mais lido.
  • junho de 2010: a Apple incorpora a língua catalã ao novo sistema operacional iOS 4 do iPhone, iPad e iPod Touch.
  • junho de 2010: Viquipèdia alcança os 250 mil artigos.
  • outubro de 2010: apresentada na Universidade de Alicante a primeira tese de doutorado sobre Vilaweb: “Um modelo de jornalismo para a rede: o caso de Vilaweb”.
  • 6 de novembro de 2010: Vilaweb recebe o Prêmio Pompeu Fabra na categoria de comunicação e novas tecnologias, por transformar a língua catalã em língua de uso habitual no espaço comunicativo.
  • fevereiro de 2011: em protesto contra o fechamento da TV3 no País Valenciano, no dia 17, Vilaweb e outros meios de comunicação fecharam seus sites durante 24 horas.

Um recado para a imprensa brasileira e de outros países lusófonos

Desde a sua criação, o Aqui Catalunha se caracteriza pelo rigor na pesquisa, pelo respeito aos leitores e, sobretudo, pela coragem de lutar por um espaço difícil: o âmbito das notícias sobre a Catalunha. As informações que chegam aos países de língua portuguesa, especialmente ao Brasil, estão a anos-luz de mostrarem os detalhes da atualidade catalã, principalmente sobre o conflito político entre Catalunha e o Estado espanhol.

Portais como Vilaweb, El Punt Avui, El Món e El Nacional explicam a Catalunha de uma maneira não vista em portais como El País, ABC ou El Confidencial, ou em notícias divulgadas pelas agências EFE, AFP ou Reuters. Uma das grandes diferenças entre os três últimos diários e os quatro portais catalães é a língua. Por qual motivo os portais originalmente escritos em catalão não são levados em conta em coberturas, especialmente no Brasil, sobre os temas mais difíceis da atualidade catalã? Por que olhar a Catalunha pela luneta de agências que não entram em detalhes, e pela luneta de portais que ocultam ou distorcem determinadas informações essenciais? Por que perguntar aos visitantes em vez de perguntar aos anfitriões sobre o que acontece na casa?

O jornalismo catalão, como qualquer outro, tem falhas. Entretanto, tem legítimos representantes do jornalismo bem feito. Jornalismo da casa. Jornalismo premiado. Jornalismo pioneiro. Este texto editorial não é apenas uma homenagem aos 26 anos de Vilaweb: é, também, um recado para a imprensa lusófona de que existe uma imprensa própria da Catalunha, e com a língua própria da Catalunha. Os cursos de catalão da Associação Cultural Catalonia podem ser de grande ajuda.

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