Por que os táxis de Barcelona têm as cores amarela e preta?

O amarelo tem um forte significado no atual contexto político-social na Catalunha. Sinônimo de apoio à liberdade dos presos políticos catalães, a cor amarela também está fortemente presente nos táxis de Barcelona. Estariam os taxistas da capital catalã apoiando a mesma causa democrática, ou há outro motivo que explica a presença do amarelo nesses veículos?

Nesta publicação da seção Por dentro da Catalunha, vocês conhecerão um pouco da história dos táxis da capital da Catalunha, e terão a resposta para a pergunta ‘Por que os táxis de Barcelona têm as cores amarela e preta?’. O que vocês lerão tem por base o livro Ciutat Transportada, produzido por Marc Andreu, Guillem Huertas, Josep M. Huertas e Jaume Fabre, em 1997. Guillem Huertas e Josep Huertas também são autores do livro La Barcelona d’Ahir (A Barcelona de Ontem), uma obra que apresenta os ofícios e costumes de uma Barcelona que existiu, de um tempo que não voltará mais.

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Uma breve história do táxi em Barcelona

Os táxis da era moderna (motorizados), considerados herdeiros das carruagens do século XIX, apareceram em Barcelona em 1906, ano em que também surgiram os primeiros ônibus na capital catalã. Eram seis veículos e um ponto único, na La Rambla. Em 3 de agosto de 1907, quatro meses antes da criação da Guarda Urbana, surgia o primeiro táxi com placa de identificação. Até o fim da Primeira Guerra Mundial, os táxis ainda dividiam espaço com as carruagens. Alguns dos primeiros taxistas eram donos das antigas formas de locomoção.

Em 1910, a fim de dar maior visibilidade e potência ao novo meio de transporte, algumas empresas do ramo de veículos decidiram organizar um serviço de táxi (também conhecido à época como “carro de aluguel”) com motoristas próprios. No dia 15 de julho, foi inaugurado o serviço com 21 veículos da chamada “Companyia General”, que pagou 250 pessetes (equivalente a 1.500 euros) à Prefeitura de Barcelona em conceito de impostos e licenças.

O novo negócio e meio de transporte crescia rapidamente. Em 1914, foi criada a companhia David – ainda em atividade, porém com atuação mais diversificada e transformada em grande centro de negócios – que dominou o setor na década de 20. Paralelamente ao surgimento das companhias, havia os motoristas autônomos que compravam um carro de segunda-mão, e o adaptavam para que fosse usado como táxi. E a fim de competir com as companhias, os autônomos começaram a se organizar em cooperativas.

A cor amarela nos táxis de Barcelona

Cada cidade ao redor do mundo tem sua forma de “colorir os táxis”. E por trás da cor escolhida, há uma explicação. A respeito dos táxis de Barcelona, existem diversas publicações em portais de notícias e sites de curiosidades sobre a cor amarela nos táxis da capital catalã. Em muitas dessas publicações, a pergunta feita é bem semelhante à que intitula esta matéria do Aqui Catalunha, mostrando que existem muitos cidadãos de Barcelona desconhecem o porquê de os táxis da cidade terem o amarelo nos veículos, originalmente pretos. Para que vocês conheçam o motivo, voltemos aos anos 20 do século passado.

Anos 20: as primeiras regulamentações

No início daquela década, Barcelona contava com cerca de 250 táxis com placa de identificação. O número de veículos que ofereciam serviços de táxi, porém, era maior, próximo a mil. Existiam 64 pontos de táxi, mas o número de potenciais clientes ainda era pequeno.

Em 1924, a Prefeitura de Barcelona aprovou a criação do Código de Circulação, que continha, entre outras regras, o uso obrigatório do taxímetro, e a inserção de uma faixa colorida sob a janela dos passageiros e na parte traseira do veículo, a fim de que os carros fosse melhor identificados. Inicialmente, as faixas eram vermelhas, brancas, azuis e amarelas. Cada uma das cores correspondiam a uma tarifa. O vermelho indicava o valor de 50 centavos por quilômetro; o branco, 40 centavos; o azul, 80 centavos; o amarelo, 60 centavos.

1929: o ano do grande crescimento do setor

Barcelona foi o centro da Exposição Internacional de 1929. O número de táxis na capital da Catalunha cresceu de forma vertiginosa: ainda que não houvesse nem um milhão de habitantes na cidade, a frota de táxis registrou uma marca de 4.000 veículos. A grande concorrência, porém, não acontecia somente entre a companhia dominante à época, demais companhias privadas e autônomos. O ‘boom’ do transporte em Barcelona também tinha a ver com a presença dos bondes, novos ônibus e trens. Começava, então, uma intensa disputa em relação aos preços, e que incentivou algumas práticas à margem da lei, como transportar diversos passageiros de uma vez.

Uma das consequências da guerra no transporte de Barcelona foi o desaparecimento de algumas companhias de táxi. A crise no setor afetou, também, a poderosa companhia David: ela era conhecida por jamais reduzir suas tarifas, mas foi obrigada a fazê-lo por meio da criação de uma filial, chamada Goliat (Golias), que rebaixou os valores. No ano seguinte, a Prefeitura de Barcelona criou outras regras para combater a desordem no setor dos táxis. A primeira: os novos motoristas deveriam ter, no mínimo, dois anos de experiência como condutores de veículos de aluguel para obterem a licença. A segunda: a partir daquele momento, haveria uma tarifa única, que correspondia a 60 centavos. Institucionalizava-se, portanto, os veículos negros com faixas amarelas como os táxis da cidade de Barcelona.

 


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