Amer, o berço de Carles Puigdemont

Em junho de 2017, um nome catalão começou a ser espalhado pelo mundo: Carles Puigdemont, jornalista responsável pela criação do jornal Catalonia Today, autor do livro Cata…què?, e político que iniciou um terremoto no Estado espanhol e na Europa. Esta publicação, porém, não tem por objetivo relatar a vida de Puigdemont, mas sim de apresentar ao leitor brasileiro o berço de Puigdemont: Amer. Como tantos outros cantos da Catalunha, o município de Amer tem uma história de muitos séculos, e o jornal Aqui Catalunha mostra, nesta publicação inédita no Brasil, um pouco sobre o que o poble de Puigdemont tem e o que representa na Catalunha.

Publicação relacionada: Versões sobre a fundação da cidade de Girona

Um município com mais de 1000 anos de existência

Amer, o berço de Carles Puigdemont - Monestir d'Amer - Aqui Catalunha
O Mosteiro de Amer (El Monestir d’Amer)

Amer é um município situado ao norte da comarca de Selva, em Girona. Segundo os números mais recentes de Idescat, o Instituto de Estatística da Catalunha, Amer tem uma população formada por 2.256 habitantes, e sua área tem 40,08 km2. O núcleo urbano de Amer foi construído ao redor do mosteiro medieval. No dia 9 de novembro ano de 949, Gotmar, bispo de Girona e abade de Sant Cugat de Vallès, consagrou a igreja do novo mosteiro (Monestir de Santa Maria d’Amer) na presença do conde de Barcelona Borrell II. Foi ao redor do Mosteiro de Santa Maria d’Amer onde constituiu-se o primeiro núcleo da vila de Amer.

No século XII, já havia notícias sobre o Mercat d’Amer (também chamado de Mercat Setmanal d’Amer, e funciona às quartas-feiras). Esse mercado está situado na Plaça Major d’Amer, mais conhecida como Plaça Porxada d’Amer (a arquitetura local é dominada pelos pórticos, daí o nome ‘Porxada’). Durante muitos séculos, esse mercado foi um destacado motor do crescimento econômico e social do município, e deu origem a muitos comércios e serviços.

Curiosidades sobre Amer

Amer, o berço de Carles Puigdemont - Llibre del Sindicat Remença - Aqui Catalunha
Llibre del Sindicat Remença, considerado o precedente dos sindicatos da era contemporânea

Com tantos anos de história, Amer tem uma grande coleção de curiosidades. Uma delas está diretamente relacionada ao governo da Generalitat de Catalunya. Além de Carles Puigdemont, nascido em Amer, três outros presidentes catalães tinham laços com o município. O primeiro deles foi Francesc de Giginta, entre 1566 e 1568. O segundo foi Miquel d’Alentorn, entre 1635 e 1637. O terceiro, Andreu Pont d’Osseja, governou de 1647 a 1649. Coincidentemente, esses três homens eram abades do Mosteiro de Amer.

Ainda em relação ao mosteiro, seu último abade foi Joan Antoni de Llanza i de Valls. Em 1835, o mosteiro foi fechado devido a uma exclaustração (despejo do claustro religioso). Antes disso, no século XV, esse espaço religioso foi o centro de negociações entre os trabalhadores do campo (conhecidos, na Catalunha feudal, como pagesos de remença) e os grandes proprietários de terra. Os constantes abusos contra os trabalhadores do campo haviam provocado a Guerra dels Remences. O conflito foi resolvido em 1486, quando Ferran II decretou a Sentència Arbitral de Guadalupe, que dava fim aos abusos e estabelecia novas regras nas relações entre trabalhadores e senhores feudais. Vale mencionar, também, que o movimento conjunto dos vassalos levou à criação, em 1448, do Llibre del Sindicat Remença, o documento que apresenta a ata de todas as reuniões que tinham por objetivo escolher os representantes que negociariam a abolição dos abusos, e arrecadar dinheiro para financiar esse processo. O livro foi a base da revolta dos remences contra a nobreza entre 1461 e 1485, e é considerado o primeiro precedente dos sindicatos da época contemporânea. Tal é sua importância que, em 2013, foi inscrito no Registro de Memória do Mundo, da UNESCO, sendo a única obra catalã no acervo.

Amer, o berço de Carles Puigdemont - Sardana de l'Alcalde - Aqui Catalunha
Sardana de l’Alcalde, na Plaça Porxada de Amer

Patrimônio festivo

O evento festivo mais conhecido em Amer é, sem sombra de dúvidas a sua Festa Major. Em todo dia 16 de agosto, na Plaça Porxada, os moradores dançam a sardana. Quanto à dança, nenhuma novidade, mas o que a diferencia das sardanes de outras regiões da Catalunha é o fato de não ser fechada, formando uma espiral bastante peculiar. O nome dessa sardana é Sardana del Batlle (ou Sardana de l’Alcalde), e é assim por ser liderada pelo prefeito / prefeita de Girona e uma pessoa acompanhante. No ano passado, Marta Madrenas, atual prefeita de Girona, foi acompanhada pelo deputado do partido JxCat, Eduard Pujol.

A Sardana de l’Alcalde tem muitos séculos de tradição em Amer, mas havia sido interrompida no início da década de 20 do século passado. Em 1949, 1000 anos após a consagração do Mosteiro de Amer, a Sardana de l’Alcalde voltava a ser dançada.

Herança Puigdemont

Amer, o berço de Carles Puigdemont - Pastisseria Puigdemont - Aqui Catalunha
Pastisseria Puigdemont, fundada em 1928 pelos avós do 130º presidente da Generalitat de Catalunha

Quando fala-se em Puigdemont, logo pensamos no líder que convocou o referendo de autodeterminação, realizado em 1º de outubro de 2017. O sobrenome, porém, é de uma das famílias mais importantes da história recente de Amer. Em 1979, Josep Puigdemont, tio de Carles Puigdemont, foi o primeiro prefeito de Amer da era pós-franquista, e governou Amer até 1983. Atualmente, Josep Puigdemont tem 90 anos, e em maio de 2018, recebeu a Medalha de Ouro das mãos da prefeita de Amer, em reconhecimento ao “franco e leal amor de Josep Puigdemont a Amer”.

Além disso, há outro fato sobre a família de Carles Puigdemont não muito conhecido. Seus pais são donos da Confeitaria Puigdemont (Pastisseria Puigdemont), que foi fundada em 1928 pelos avós de Puigdemont.


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