Quando o governo da Catalunha dedica pouco tempo à língua catalã

Então os atuais líderes do governo da Catalunha querem “trabalhar pela independência”, mas são incapazes de usar a língua catalã como devem… No mínimo, uma conduta digna de deboche, uma piada. É assim que desejam vender a imagem da Catalunha no exterior? Que tipo de credibilidade política conseguirão se são incapazes de dedicar mais minutos à língua própria da Catalunha perante cônsules em Barcelona? Se são incapazes de fazer o mínimo, esqueçam os projetos políticos mais complexos. Eu me pergunto o que a Plataforma per la Llengua, entidade que trabalha dia e noite pela promoção da língua catalã na sociedade, dirá sobre esse episódio.

Vou explicar a queixa. No dia 15 de julho, a conselheira de Relações Exteriores do governo catalão, Victòria Alsina, e o presidente da Catalunha, Pere Aragonès, fizeram um discurso perante cônsules, em Barcelona, em que defenderam – como sempre, e aos ventos – a “anistia e um referendo de autodeterminação pactado com o governo espanhol“. É provável que os líderes do governo da Espanha continuem a rir, e com razão. O presidente catalão garantiu, diante dos cônsules, que seu governo manterá um “compromisso inequívoco” com os princípios básicos da democracia e da liberdade. O “compromisso” foi anunciado, integralmente, em castelhano, língua que dominou seu discurso, com um tempo consideravelmente maior que o tempo reservado ao inglês. Língua catalã? Nenhuma palavra. Seu compromisso mais básico, Pere Aragonès, precisa ser com a língua própria da Catalunha.

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O “compromisso com os princípios básicos da democracia” e o “diálogo” com o Estado espanhol – mais risadas e aplausos para a comédia – foram anunciados, também, por Victòria Alsina. Conforme bem detalhou o editor do portal Vilaweb, Vicent Partal, a representante de Relações Exteriores da Catalunha dedicou 6 minutos e 30 segundos ao castelhano, 1 minuto e 18 segundos ao inglês, 40 segundos ao catalão e 2 segundos ao francês.

Muitas pessoas tentaram vender a ideia de que a apresentação dos líderes catalães foi “multilíngue”. De fato, houve a presença de quatro idiomas, mas de maneira incompreensivamente desigual. Por outro lado, alguns meios de comunicação, como o portal E-Notícies, argumentam que Victòria Alsina foi criticada por ter falado em castelhano (“Críticas à conselheira por falar em castelhano”). Como costuma dizer um economista em algumas publicações no Facebook: “Alma cândida…”.

É preciso que as almas cândidas entendam que as críticas contra Victòria Alsina são justificadas pelo fato de dedicar um tempo quase nulo à língua catalã, não por ter falado em castelhano. Conforme explica Vicent Partal em sua publicação editorial, “a imensa maioria dos cônsules honorários, que são muitos em Barcelona, são catalães que, normalmente, falam perfeitamente o catalão“. Portanto, é injustificável que a língua própria (não confundamos com língua oficial) tenha uns ridículos 40 segundos de presença. De maneira mais coerente e justa, o catalão e o castelhano deveriam ter tempos bastante aproximados, seguidos pelo inglês e pelo francês. Entretanto, a língua catalã apareceu como migalhas no discurso daqueles políticos que prometem “trabalhar” pelo “diálogo” com o Estado espanhol e pela “autodeterminação”.

A primeira autodeterminação pela que deveriam trabalhar os senhores Pere Aragonès e Victòria Alsina é pela identidade linguística. Uma Catalunha sem líderes que tenham essa consciência é um território como qualquer outro da Espanha. Independência? Esqueçam. Nenhum Estado com um mínimo de decência reconhecerá um território independente onde os próprios líderes deixam a língua própria em segundo plano.

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