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19/09/2021

Por que Jair Bolsonaro prestou condolências a Israel, mas não condenou os ataques contra civis palestinos?

Por que Jair Bolsonaro prestou condolências a Israel, e ignorou os palestinos?

A equidistância é um termo de significado simples, mas de aplicação difícil. Para aplicá-la de maneira correta, precisamos olhar para os dois lados. Às vezes, manter-nos equidistantes é o ato mais justo. Entretanto, há ocasiões que não requerem uma posição justa e igual em relação aos dois lados: ao contrário, exigem uma escolha. Direita ou esquerda.

Nesta semana, o conflito bélico entre Israel e Palestina tem disputado espaço com o avanço da vacinação e os contínuos casos de infectados e vítimas da COVID-19. Temas menores, mas muito importantes, como a vitória do bloco independentista na Escócia (que, provavelmente, desafiará Londres com a convocação de um referendo), os embates desnecessários e vergonhosos entre os partidos ERC e Junts per Catalunya sobre a formação do governo da Catalunha, e os conflitos na Colômbia ficam, momentaneamente, para trás.

No dia 12 de maio, às 19h50, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, publicou a seguinte mensagem no Twitter: “É absolutamente injustificável o lançamento indiscriminado de foguetes contra o território israelense. – A ofensiva provocada por militantes que controlam a Faixa de Gaza e a reação israelense já deixaram mortos e feridos de ambos os lados. Expresso minhas condolências às famílias das vítimas e conclamo pelo fim imediato de todos os ataques contra Israel, manifestando meu apoio aos esforços em andamento para reduzir a tensão em Gaza.”. Essa publicação precisa ser analisada de acordo com dois eixos: o tempo e a subliminaridade linguística.

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O portal CNN Brasil publicou uma linha do tempo deste novo confronto entre israelenses e palestinos, e pode ser vista aqui. Não é papel deste editorial explicar os motivos do confronto, as informações estão disponíveis em vários portais de notícias, e é recomendável que vocês estejam informados antes de lerem até o final. O papel deste texto é analisar a mensagem de Jair Bolsonaro.

Todos as pessoas com uma consciência bem preservada concordam que “o lançamento indiscriminado de foguetes” é algo condenável.

Após a exposição de sua opinião, o presidente brasileiro faz uma breve descrição dos ataques contra o território israelense, e “conclama” pelo fim imediato de todos os ataques contra Israel. No fim, manifesta seu apoio aos “esforços em andamento para reduzir a tensão em Gaza”. Porém, a mensagem de Jair Bolsonaro e o seu silêncio nas redes sociais sobre o tema, nesse 13 de maio, oculta as seguintes informações:

  • conforme notícia publicada no portal britânico BBC no dia 12, sobre declarações de Boris Johnson a respeito do confronto, 53 palestinos e 6 israelenses foram assassinados desde segunda-feira. Entre os 53 palestinos mortos, havia 14 crianças e 13 mulheres. Boris Johnson, ao contrário de Bolsonaro, exigiu que ambos os lados interrompessem os ataques. Outro líder político que exigiu que os dois lados interrompessem o conflito foi o russo Vladimir Putin. Assim como Johnson, e ao contrário de Bolsonaro, Putin não apenas se limitou a condenar os ataques a Israel.
  • de acordo com publicação da CNN feita no dia 12, e atualizada no dia seguinte, 67 civis palestinos haviam perdido suas vidas. Entre as vítimas, 17 eram crianças. A publicação informa que, de acordo com Israel, 15 das vítimas eram militantes do grupo terrorista Hamas. Ou seja, mais pessoas inocentes mortas do que terroristas.
  • Bolsonaro, até o momento desta publicação, não citou ou condenou a declaração de ofensiva total feita pelo Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O líder israelense afirmou que “as forças militares de Israel têm ordem clara para usarem o máximo possível de força, e que não devem se preocupar com investigações ou comissões de inquérito”.

As palavras do primeiro-ministro de Israel seguem a linha de raciocínio do filho do presidente, Eduardo Bolsonaro. Em uma publicação no Twitter, Eduardo critica investigação da ONU sobre a violação de direitos humanos em Israel. Para o deputado do PSL, “é como se bandidos condenassem uma ação da polícia”.

No dia 12 de maio, às 21h, Eduardo Bolsonaro publicou uma mensagem de apoio a Israel, afirmando que o país “é uma democracia e respeita as mulheres e crianças”. Entretanto, até este momento, o filho do presidente brasileiro não exigiu o fim do conflito, e nem se solidarizou com os civis palestinos que foram assassinados.

De acordo com as informações mais recentes obtidas para este editorial, 113 palestinos foram assassinados. Entre eles, 31 eram crianças. A ofensiva de Israel continuou durante a madrugada desta sexta-feira, bem como os lançamentos de foguetes por parte do grupo Hamas. Vale a pena lembrar que Israel possui um poderoso sistema de defesa, o Domo de Ferro. De acordo com notícia publicada pelo portal G1, com base em informações do exército israelense, o escudo antimíssil israelense havia bloqueado 850 dos 1050 mísseis e morteiros lançados pelo grupo terrorista Hamas.

Desde sua publicação no dia 12 de fevereiro sobre o conflito, em que se limitou a condenar os ataques contra Israel, Jair Bolsonaro, diferentemente de outros chefes de Estado, não se pronunciou sobre a guerra, e menos ainda sobre as vítimas palestinas. Não exigiu que ambos os lados parassem os ataques, apenas “conclamou” o fim imediato dos ataques contra Israel, como se o país não tivesse um forte poder bélico, nem um poderoso sistema de defesa. Novamente: qualquer tipo de ataque organizado por um grupo terrorista é censurável. Entretanto, quando um dos lados possui sistemas de ataque e defesa imensamente poderosos, e o usa de maneira desenfreada, sem se importar se pessoas inocentes, especialmente as crianças, serão gravemente feridas ou mortas, há um problema.

As palavras dizem, mas a ausência delas, tanto na mesma mensagem quanto no tempo transcorrido posteriormente, diz ainda mais. Jair Bolsonaro, de maneira evidente, e seu filho, de modo abominável, ignoram os civis palestinos inocentes que perderam suas vidas. Palavras feias, e um silêncio ainda mais perturbador. Sem dizerem, apoiam as palavras do Primeiro-Ministro israelense: “o máximo possível de força”. E, de maneira clara, o filho de Bolsonaro tenta deslegitimar as investigações da ONU sobre a violação de direitos humanos por parte de Israel. Mais uma vez, como de costume, usa um termo pouco adequado para a sua condição de representante político.

O presidente brasileiro soube escrever uma mensagem de condenação dos ataques contra Israel, mas… Por que se cala diante do fato de Israel não fazer uma distribuição justa das vacinas para a Palestina? Entretanto, Israel enviou diversas doses para o exterior, como recompensa aos países que levaram suas embaixadas para Jerusalém. Como explicará o aumento astronômico de seu salário e de outros ministros (leiam a notícia) enquanto milhões de brasileiros, inclusive vários de seus seguidores e fãs da intervenção militar, não têm o que colocar no prato? Como explicar que um país como o Vietnã, com muito menos recursos, alta densidade populacional e um sistema de saúde mais precário que o do Brasil, soube lidar com o desafio da pandemia, e terminou 2020 com um crescimento econômico de 2,9%? Não por acaso é destaque em uma matéria do Fundo Monetário Internacional.

Criticar mensagens e atos do presidente brasileiro não significa estar posicionado em um dos lados do espectro político. Significa usar o exercício da análise fria e o rigor informativo para provocar uma reflexão nos leitores. E, a partir da reflexão, e não da reação, mudar determinados padrões de pensamento.

 

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