Independência da Catalunha socialmente quantificada

O especialista em análise e tratamento de dados Joe Brew, um norte-americano de 33 anos, tem dedicado uma observação detalhada sobre o independentismo catalão, especialmente sobre o que é dito pelas pessoas que são contra o movimento. Joe Brew tem uma coluna semanal no portal de notícias Vilaweb, onde apresenta gráficos que corroboram ou desmentem discursos. A maior parte de seus estudos publicados está ligada à análise de comportamento linguístico e numérico no Twitter.

Atualmente, Joe Brew possui uma empresa que faz consultoria de dados em grupos acadêmicos e sociais nos Estados Unidos e no Canadá. Já trabalhou, também, no Analyst Institute dos Estados Unidos, uma consultoria política que realiza análise de dados para campanhas eleitorais.

Esta publicação do Aqui Catalunha tem por objetivo explicar a mais recente divulgação de Joe Brew no portal Vilaweb. O analista apresenta alguns gráficos, baseados nas opiniões de eleitores catalães, sobre o apoio em termos numéricos à independência da Catalunha. Os setores contrários à existência da República da Catalunha afirmam que o suporte ao independentismo é representado por apenas 47% dos cidadãos. A afirmação tem como âncora o resultado das eleições no Parlamento da Catalunha, vencidas pela coligação independentista (em 2015 e em 2017). Joe Brew, entretanto, demonstra que o independentismo catalão é majoritário, e o situa na faixa dos 53%.

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Questões prévias

Joe Brew inicia sua coluna expressando que, em uma eleição, o que está em jogo são as disputas entre partidos, não entre políticas específicas. Brew deixa claro que, quando alguém vota em um partido ou candidato concreto, não necessariamente está em sintonia com todos os seus posicionamentos. O analista ilustra sua afirmação com o exemplo de Donald Trump e as eleições nos Estados Unidos, em 2016. Naquele ano, Trump declarou que a mudança climática era uma “mentira científica”, mas isso não o impediu de vencer com 46,1% de apoio. Joe Brew pergunta se o resultado, portanto, demonstraria que apenas 54% dos cidadãos norte-americanos estariam cientes das reais e perigosas mudanças climáticas. A resposta é óbvia: não. O analista apresenta um relatório que demonstra que 71% dos cidadãos dos Estados Unidos aceitam a realidade das mudanças no clima global, somente 13% a ignoram. Ou seja, a esmagadora maioria que votou em Trump era contra a opinião do presidente sobre esse tema. Brew conclui essa análise afirmando que usar os resultados eleitorais para entender o apoio sobre um ponto específico é um erro. Essa conclusão é claramente aplicável ao contexto catalão, mais precisamente sobre o movimento independentista.

Método empregado

A análise feita por Joe Brew leva em consideração as opiniões sobre a independência da Catalunha por cada partido político. O foco era observar as diferenças entre o ponto de vista de um determinado partido político sobre a independência catalã, e o que pensam os eleitores desses partidos sobre o tema. A base de dados utilizadas para a pesquisa foi o Baròmetre d’Opinió Política, o maior e mais rigoroso centro de estudos de opinião na Catalunha.

Resultados e explicações

O primeiro gráfico foi elaborado com base na opinião de 19.338 catalães que responderam a seguinte pergunta, feita 12 vezes desde 2015, até 2018: “Querem que a Catalunha se torne um Estado independente?”. A cor azul representa os cidadãos a favor da independência; a verde, os que não souberam ou não quiseram opinar; em marrom, as pessoas contra o movimento independentista. Brew explica que o apoio à independência atingiu os 52%; por outro lado, o grupo que rechaça o independentismo catalão nunca alcançou os 50%. No segundo gráfico, sem a faixa verde dos eleitores indecisos, Brew mostra que o independentismo flutuou entre os 51% e 55% em 2018, situando-se, mais precisamente, nos 53,12%. Em outras palavras, em um hipotético referendo, o apoio à independência da Catalunha seria explicitamente majoritário.

Independência da Catalunha socialmente quantificada menos ou mais de 50% de apoio - GRÁFICO 1Independência da Catalunha socialmente quantificada menos ou mais de 50% de apoio - GRÁFICO 2

Os 47% nas eleições em contraste com os 53% do tema independentista

O resultados das eleições (47%) é inferior ao obtido na enquete (53%) que unicamente leva em consideração a independência da Catalunha. Conforme dito por Joe Brew, votar em um determinado partido político não necessariamente diz que estejamos de acordo com todas as suas propostas. Ou seja, nas palavras do analista norte-americano, “muitos eleitores dos partidos unionistas são a favor da independência catalã”. Inicialmente, pode ser um pouco difícil compreender o fato, mas Brew, nos seguintes gráficos, esclarece a dúvida.

O independentismo nos partidos unionistas

Neste terceiro gráfico, são apresentadas as opiniões sobre a independência em relação a cada partido político atuante na Catalunha. As cores simbolizam os mesmos pontos de vista dos gráficos 1 e 2, e indicam o seguinte: o número de eleitores que discordam do posicionamento de seu partido em relação à independência da Catalunha é maior no grupo dos partidos unionistas do que o registrado no grupo dos partidos independentistas (CUP, ERC e PDECat / JxCat).

Independência da Catalunha socialmente quantificada: menos ou mais de 50% de apoio? - Aqui Catalunha - gráfico 3

Representando as diferenças entre as opiniões dos eleitores e as visões dos partidos, constata-se o seguinte (as informações podem ser visualizadas no próximo gráfico):

  • no grupo dos partidos independentistas, 91% de seus eleitores são a favor da independência, e apenas 5,4% se opõem ao projeto
  • no grupo dos partidos adeptos ao unionismo, o número de eleitores a favor da independência corresponde a 14,1%.

Entende-se, agora, o porquê de o independentismo catalão superar os 50%, ainda que os partidos independentistas não tenham alcançado os 50% dos votos. Mais uma vez, percebe-se que o movimento pela independência da Catalunha é um processo que nasce da vontade do povo, uma vontade majoritária no território catalão. E também podemos compreender melhor o que leva o governo da Espanha a rechaçar um referendo pactado com o governo da Catalunha, pois sabe que perderia. Deixar de contar com a prosperidade econômica de um território como a Catalunha é o pesadelo jamais admitido ao público pelo governo e monarquia espanhóis para justificar seu rechaço à independência catalã, alegando apenas que a autodeterminação é um direito não contemplado na Constituição espanhola, elaborada na fase pós-franquista, a da “transição democrática”.

Independência da Catalunha socialmente quantificada menos ou mais de 50% de apoio - Aqui Catalunha - gráfico 4

Conclusões

Com os dados analisados e expostos, Joe Brew conclui que as opiniões dos eleitores sobre a independência da Catalunha nem sempre estão de acordo com a posição tomada por seus partidos representantes. Brew tenta encontrar razões precisas que expliquem o fenômeno, mas não são claras. Uma hipótese é a de que haja um número significativo de independentistas que têm outras prioridades em mente e, portanto, votam em um partido unionista. A única evidência clara é a de que, em um hipotético referendo pactado com o governo espanhol, a independência da Catalunha teria o suporte da maior parte da cidadania catalã.

A grande pergunta, que suscita outras, é: ‘Haverá referendo pactado? E se houver, o que o terá provocado? E se não houver referendo pactado, haverá independência unilateral? Por quanto tempo durará o processo independentista?’.

A análise de Joe Brew foi originalmente publicada no GitHub.

 


 

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