Crônicas do julgamento aos presos políticos catalães – 6º dia

A sessão judicial no Supremo Tribunal espanhol de 21 de fevereiro prometia ser outra maratona de mais de oito horas, estrelada pelo ex-presidente da Assembleia Nacional Catalã (ANC), pelo presidente da Òmnium Cultural e pela ex-presidente do Parlamento da Catalunha. O primeiro interrogado, porém, foi Santi Vila, que “acreditou, até o último momento, que o referendo de 1º de outubro jamais seria realizado”. Previa-se que o 6º dia de julgamento aos presos políticos catalães terminaria com perguntas feitas à Carme Forcadell, sendo antecedida por Jordi Cuixart. Os planos foram alterados, e foi Jordi Sànchez o segundo e último acusado a depor.

Na próxima terça-feira, Cuixart e Forcadell terminarão a segunda fase do julgamento levado a cabo em Madrid, fechando a lista de depoimentos iniciada por Oriol Junqueras e Joaquim Forn (3º dia), e continuada por Jordi Turull e Raül Romeva (4º dia), e Josep Rull, Dolors Bassa, Meritxell Borràs e Carles Mundó (5º dia).

Crônica relacionada: Crônicas do julgamento aos presos políticos catalães – 5º dia

Santi Vila

  • Crônicas do julgamento aos presos políticos catalães – 6º dia - Santi Vila - Aqui Catalunha
    ‘Deveríamos ter administrado esse conflito de outra forma, assim, não estaríamos aqui no Tribunal’.

    “Tivemos muita pressão dos cidadãos para que a ação política fosse pela via unilateral”.

  • “Quando o Tribunal Constitucional suspendeu a lei do referendo, tudo passou a ser apenas uma grande mobilização política. A partir daquele momento não reconheci o referendo como tal”.
  • “A impressão que tenho, pela minha bagagem na política, é que o referendo foi financiado por empresários que apoiavam a causa catalanista”.
  • “A legislatura começou com um discurso independentista, mas havia centenas de milhares de cidadãos, incluindo a mim, que apoiávamos o movimento porque poderia ser a chance de criar uma onda de reformas e atualização dos consensos constitucionais”.
  • “Acreditei até o último momento que não se faria o referendo”.
  • O ex-secretário de Empresa e Conhecimento admitiu que “estava convencido de que nenhuma decisão unilateral seria tomada”.
  • Perguntado sobre o que poderia ter feito para impedir o referendo, Vila disse: “Eu era o secretário de Empresa e  Conhecimento, não tinha ideia do que poderia fazer”.
  • “O que aconteceu na Catalunha não faz parte de uma sociedade moderna e avançada como a catalã”.
  • “Deveríamos ter administrado esse conflito de outra forma, assim, não estaríamos aqui no Tribunal”.
  • “Em nome de Puigdemont, tive contatos com membros do governo espanhol”.
  • “Tanto na Generalitat quanto no governo espanhol havia mais gente moderada do que se pensa”.
Crônicas do julgamento aos presos políticos catalães – 6º dia - Jordi Sànchez - Aqui Catalunha
‘Pelo que sei, em alguns colégios eleitorais houve uma atuação desproporcional da polícia. E pelo que também sei, a polícia usou balas de borracha, proibidas na Catalunha. E também sei que um cidadão perdeu um olho por causa de uma delas’

Jordi Sànchez

  • “Eu me considero um preso político e estou em um julgamento político”.
  • “O guia da ANC com os passos para a independência foi feito quando eu já não era o presidente, mas conheço o documento”.
  • “Propor a independência é claramente legítimo”.
  • “Estou convencido de que estou aqui por ter sido presidente da ANC”.
  • Sànchez informou ao promotor que a convocação feita aos cidadãos catalães, no dia 20 de setembro de 2017, para defender as instituições catalãs [no caso, o Departamento de Economia do governo catalão, invadido pela Guarda Civil] não foi dele, e que por trás da convocação “havia um grande número de entidades”.
  • Sànchez disse que a mobilização não era para ser diante do Departamento de Economia, mas sim na interseção entre a Rambla de Catalunya com a Gran Via, e que já havia pessoas diante do Departamento de Economia antes da convocação.
  • “Uma decisão judicial deve ser respeitada, mas isso não a isenta de protestos. Por isso convocamos o povo da Catalunha para a mobilização”.

INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR: para mais informações sobre as perseguições do Estado e justiça espanhóis ao movimento independentista catalão, especialmente no dia 20 de setembro de 2017, leia esta publicação: Relatório do governo da Catalunha sobre as consequências do referendo de 2017.

  • Sànchez disse que chegou ao Departamento de Economia “antes das dez da manhã”, e que “já havia muita gente em frente ao local”. E continuou: “Todos os meios de comunicação já estavam lá, e já estavam em cima dos carros da Guarda Civil para conseguir imagens”.
  • O ex-presidente da ANC afirmou que tentou entrar no Departamento para falar com o comandante da Guarda Civil, mas foi impedido.
  • Sànchez disse que, naquele dia, recebeu uma ligação do ex-secretário de Interior, Joaquim Forn, que lhe pedia ajuda para garantir a segurança. Sànchez revelou que Forn solicitou a abertura de um corredor para que a comitiva judicial pudesse passar.
  • “Na ANC, tínhamos um serviço de ordem para qualquer manifestação, e que era coordenado com as autoridades”.
  • “Ficamos surpresos com a adesão à manifestação. Tínhamos uma previsão de que estariam umas duas mil pessoas”.
  • Sànchez disse que a Guarda Civil pediu proteção para os veículos, onde havia armas.
  • Em relação aos carros da Guarda Civil que sofreram danos, Sànchez comentou: “Não se pode condenar toda uma mobilização com milhares de pessoas por umas poucas que provocaram os danos”.
  • Sànchez disse que quando conseguiu entrar no Departamento, onde estava sendo feito o perscrutamento, havia grande normalidade.
  • Sànchez relembra que a comitiva judicial fazia seu trabalho com normalidade no Departamento: “Os próprios membros da comitiva disseram isso à juíza Carmen Lamela”.
  • “Com o microfone eu não era capaz de desmobilizar as pessoas”.
  • “O protesto foi pacífico, é o que foi registrado nas câmeras de segurança dos edifícios ao redor”.
  • “O protesto foi diminuindo graças, em parte, aos meus apelos e os de Jordi Cuixart”.
  • “O corredor para facilitar a entrada e saída do Departamento foi mantido até o último instante”.
  • “Posso ser independentista, não idiota”.
  • “Eu tinha a obrigação de colaborar com os Mossos, da mesma forma que colaborei com a Guarda Civil, quando me comunicaram que havia armas em um veículo”.
  • “Nem eu e nem os manifestantes bloqueávamos o caminho da comitiva”.
  • “Perto de meia-noite pedimos às pessoas que acabassem com a mobilização. Nossa previsão era que o protesto acabasse à meia-noite”.
  • Sànchez disse que “a secretária judicial saiu pelo pátio interior do Departamento, e não pelo telhado”, como haviam dito. “De todas as formas, poderia ter saído pelo corredor, porque naquele dia passaram centenas de pessoas”, completou.
  • Sànchez negou que os voluntários tivessem aberto a porta dos veículos policiais, com as armas no interior.
  • O ex-presidente da Assembleia Nacional Catalã afirmou que policiais, agressivamente, dispersaram os manifestantes que ainda estavam diante do Departamento de Economia depois de meia-noite.

INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR: Para mais informações específicas sobre a manifestação do dia 20 de setembro de 2017, assista ao documentário produzido por MEDIAPRO: 20-S.

  • Sànchez reitera, após o promotor mostrar imagens dos veículos danificados, que “os danos foram provocados por apenas algumas pessoas, que não representam o espírito das mobilizações convocadas pela ANC”.
  • “Não me consta que alguma autoridade judicial tenha proibido os cidadãos da Catalunha de votarem”.
  • Sànchez defendeu as campanhas promovidas pela ANC, bem como a distribuição de cédulas eleitorais.
  • Sànchez disse que a violência policial em 1º de outubro foi “um autêntico terror”.
  • “Pelo que sei, em alguns colégios eleitorais houve uma atuação desproporcional da polícia. E pelo que também sei, a polícia usou balas de borracha, proibidas na Catalunha. E também sei que um cidadão perdeu um olho por causa de uma delas”.
  • Sànchez voltou a dizer que o referendo é um exercício de direitos fundamentais.
  • Sànchez negou a existência de planos para fechar ruas próximas aos colégios eleitorais em 1º de outubro.

A negação de Jordi Sànchez à existência desses planos surgiu de uma tentativa de prova feita pelo promotor Javier Zaragoza, membro da acusação. Zaragoza citou um suposto e-mail enviado a Sànchez por uma pessoa chamada Xabi Strubell. Sànchez, porém, afirmou desconhecer a mensagem, e constatou que o e-mail não tem resposta. Em sua linha de acusação, Zaragoza insistiu no fato de Sànchez ter recebido a mensagem e, erroneamente, utilizou a palavra ‘intercambio’ (troca), insinuando um recebimento e retorno comunicativo entre remitente e destinatário. A tentativa do promotor de incriminar o ex-presidente da ANC não funcionou. Sànchez relembrou que o nome do atual presidente do Tribunal, Manuel Marchena, esteve em mensagens de Whatsapp do porta-voz do PP (Partido Popular) no Senado espanhol, quem afirmou que com Marchena como presidente do Conselho Geral do Poder Judicial, o PP controlaria o Supremo Tribunal. Marchena renunciou ao novo cargo, e havia declarado seu desconhecimento sobre as mensagens. Após o debate entre Sànchez e Zaragoza, e a tentativa frustrada de fazer valer a acusação contra o líder catalão, o promotor encerrou o interrogatório.

  • Sobre as manifestações, especialmente nas que ocorreram em 11 de setembro nos últimos anos, Sànchez comentou sobre os elogios do serviço de limpeza da Prefeitura de Barcelona ao “civismo permanente dos manifestantes”.
  • “Há mais incidentes em um show com 15 mil pessoas que em manifestações de um milhão e pouco de cidadãos na Catalunha. É um dado estatisticamente comprovável”.
  • Sànchez afirmou que convocou os cidadãos ao referendo, e o definiu como “um exercício de direitos da cidadania”.
  • Sànchez relembrou que “o direito à autodeterminação está presente em tratados internacionais”.

Críticas do presidente da Catalunha e agenda da próxima semana

Quim Torra, em entrevista à imprensa situada no exterior do Supremo Tribunal, disse que “Jordi Sànchez destruiu uma das grandes provas falsas criadas pela Promotoria para o julgamento”. O presidente afirmou que “o Estado espanhol está sendo desmascarado com esse julgamento”, e que “o que estamos vendo é uma criminalização de ideias e direitos”. Torra voltou a apelar ao bom senso dos democratas, tanto da Catalunha como do Estado espanhol, e reiterou que “estão julgando um movimento democrático, pacífico, respeitoso e tolerante”.

Na próxima terça-feira, 7º dia do julgamento aos presos políticos catalães, serão interrogados Jordi Cuixart (presidente da Òmnium Cultural) e Carme Forcadell (ex-presidente do Parlament de Catalunya). Com isso, é provável que a terceira fase do processo judicial, que começaria no dia 26 de fevereiro, seja iniciada no dia 27, com a presença de testemunhas ligadas ao mundo político da Catalunha e da Espanha.

Acompanhe, na íntegra, o vídeo da sessão ocorrida no 6º dia do julgamento aos presos políticos catalães. Consulte, a seguir, as crônicas anteriores:


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