Carta aberta ao Jornal da Band – notícia sobre a Catalunha

Caros colegas do Jornal da Band, neste editorial, vocês encontrarão uma crítica bastante construtiva sobre uma recente cobertura do conflito político na Catalunha. No dia 21 de fevereiro, foi exibida pela emissora uma notícia, com duração aproximada de 30 segundos, sobre a manifestação em Barcelona. As imagens e as palavras utilizadas para reportar os fatos, porém, não estiveram exatamente de acordo com o que realmente ocorreu, além de carecerem de uma explicação um pouco mais detalhada sobre o conflito. Não muito mais detalhada, apenas um pouco seria o suficiente para noticiar com mais precisão a tensão entre os governos da Catalunha e do Estado espanhol.

A seguir, serão expostos os pontos da notícia que poderiam ser melhor abordados. Eles serão divididos três grupos: vocabulário sobre o conflito, imagens e aprofundamento temático.

Bloco de crônicas para consulta: Crônicas do julgamento aos presos políticos catalães – crônicas e notícias

Vocabulário sobre o conflito

O primeiro comentário é sobre a descrição no rodapé da notícia: “Catalães protestam contra julgamento de separatistas“. É necessário um certo cuidado em relação ao uso do termo “separatistas”. Ainda que as palavras “separatistas” e “independentistas” se refiram ao mesmo objetivo, há alguns detalhes que as diferenciam. O termo “separatistas”, especialmente na Espanha e nos setores sociais da Catalunha contra a independência, é usado de forma pejorativa, especialmente pelos jornais claramente avessos à independência catalã. Também utilizam a palavra com adaptações “separatas”. A palavra espanhola “rata” tem o sentido literal de “rato”, mas também é usada para descrever uma “pessoa desprezível”, e também uma “pessoa que rouba”. Verifiquem aqui, no dicionário da Real Academia Española.

O objetivo da Catalunha é ser um Estado independente em forma de República, e as vias utilizadas são pacíficas, cívicas, e sempre bem organizadas por diversos grupos civis e políticos, como podem ver nesta notícia. Existem diversos processos e mobilizações a favor da efetivação da República, e em nenhum deles ouve-se falar em rebeliões ou guerrilhas. Por tanto, o melhor termo para descrever o projeto político da Catalunha, a fim de ser o novo Estado na União Europeia, é independentista. No portal do Aqui Catalunha, vocês encontrarão outras notícias sobre mobilizações, e algo em comum: o civismo de um povo que acredita que pode viver melhor em uma Catalunha independente, que caminhe com os próprios pés, verdadeiramente democrática.

O segundo comentário tem a ver com uma qualificação não utilizada na notícia. Embora seja apropriado dizer “líderes independentistas catalães que foram presos” [e estão há mais de um ano em prisão preventiva], é ainda mais apropriado e correto dizer “presos políticos catalães”. Os doze líderes estão sendo julgados por seu projeto político independentista. Mais do que acompanharem um movimento que vai de baixo para cima – do povo aos políticos -, eles defendem o direito à autodeterminação, um direito humano rechaçado pelo governo espanhol, embora presente em sua Constituição. A autodeterminação não é crime. Portanto, a melhor descrição para os doze líderes independentistas catalães que foram presos é “presos políticos catalães”. Para um maior aprofundamento, leiam esta crônica do terceiro dia do julgamento, e este editorial, “Junqueras e a cadeira vazia”.

Imagens

Durante a exibição da notícia, as imagens apresentadas durante os 10 primeiros segundos não são o suficientes para resumir o que houve em toda a Catalunha [e não apenas em Barcelona, o único local mencionado no vídeo do Jornal da Band]. Iniciar uma reportagem sobre os acontecimentos daquele dia com pneus em chamas causa uma péssima impressão. Em seguida, foram mostrados policiais perseguindo cidadãos. Logicamente, as imagens representam momentos reais do dia, mas pô-las em primeiro lugar, além do uso do vocabulário mencionado acima, passa a seguinte mensagem: ‘O movimento de independência da Catalunha age às escuras, queima pneus, fecha estradas, e como não deveria ser diferente, tem seus apoiadores perseguidos pela polícia, porque são delinquentes. O 21 de fevereiro foi um dia de greve geral, e vocês podem acompanhar os detalhes nesta notícia, uma informação que tampouco foi citada no vídeo, que resumiu o dia a um “confronto entre manifestantes e policiais”.

Além disso, há um dado mencionado no vídeo que precisa de uma correção. No final da tarde, não foram apenas 40 mil os manifestantes que se congregaram em Barcelona. Foram 200 mil. Até mesmo na cidade de Girona houve bem mais do que o número citado na notícia: 70 mil se manifestaram.

Aprofundamento temático

A missão do portal Aqui Catalunha é divulgar a atualidade catalã no Brasil. Uma das partes dessa atualidade é o conflito político entre Catalunha e Espanha. Em 2017, a primeira bomba do conflito explodiu, após a realização do referendo, cujas consequências foram listadas aqui, neste relatório. O independentismo catalão, embasado por seus defensores civis e políticos, tem sido incessantemente atacado pela polivalente repressão do Estado espanhol. Os presos políticos catalães podem ter penas que superam os 200 anos de prisão, em conjunto. A autodeterminação não é delito, e a saída para a resolução do conflito político, que deve ser resolvido em terreno político, não judicial, é negociar, não castigar. O movimento independentista catalão é, sobretudo, um movimento incontestavelmente democrático.

Desde já, obrigado pela notícia exibida, e pela atenção dada a esta mensagem.


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