Carta aberta à ISTOÉ, ao Globo Esporte e à Gazeta Esportiva

Albert Camus, importante filósofo e escritor franco-argelino, escreveu, em 1944, o Le journalisme critique (O Jornalismo Crítico). Em um trecho, que tinha como subtópico ‘Jornalismo de ideias’, Camus disse o seguinte: “É preciso bem que nós nos ocupemos também do jornalismo de ideias. A concepção que a imprensa francesa faz da informação poderia ser melhor, como já dissemos. Queremos informar rapidamente em vez de informar bem. A verdade não ganha”. De forma mais clara, o fragmento “Queremos informar rapidamente em vez de informar bem” é explicado em uma entrevista publicada, em 2009, em  a Jean Daniel, fundador do semanário Nouvel Observateur. Nela, Jean Daniel fala sobre a aversão que Albert Camus tinha aos chamados ‘furos de reportagem’. O fundador da publicação respondeu, assim, ao seguinte comentário do jornalista:

Jornalista: Como Camus, o sr. adverte contra os furos de reportagem: é melhor averiguar do que publicar uma notícia que não é certa. Não é preciso ser o primeiro.

Jean Daniel: É melhor ser o segundo, mas verídico, do que o primeiro, mas equivocado. Todo mundo quer ser o primeiro. Na época de Camus, havia um grande assunto, a violência, e ele queria aprofundar-se mais nisso; a questão dos furos ficava em segundo lugar.

A introdução desta carta aberta é uma tentativa de mostrar aos leitores que as publicações sobre a vitória da Catalunha contra a Venezuela, nessa segunda-feira, feitas por ISTOÉ, Globo Esporte e Gazeta Esportiva, aparentam ser um produto da sede de estar na pole position da informação. Talvez seja uma crença inocente. Propositalmente inocente, mas o respeito profissional sempre deve falar mais alto. E mais alto ainda, deve falar o esmero, o refinamento informativo. Esta carta não é somente uma publicação a mais, mas sim um protesto educado, profissional, livre e cordial contra a falta de cuidados no exercício de informar. Cada uma das publicações das citadas mídias será abordada de forma minuciosa, e corrigida como merece.

Carta aberta relacionada: Carta aberta ao Jornal da Band (cobertura do conflito político na Catalunha)

Globo Esporte

Cada parte de uma notícia, do titular escolhido até as imagens selecionadas, tem uma importância fundamental na constituição informativa. O titular da notícia publicada pelo Globo Esporte, às 19h26 (26 minutos após o fim do amistoso) foi: “Após vitória sobre Argentina de Messi, Venezuela perde amistoso para Catalunha”. Logicamente, uma seleção como a da Argentina, com um dos melhores jogadores de todos os tempos, tem a obrigação de vencer seus duelos. Ultimamente, porém, tem sido um fracasso, o que fez o craque do FC Barcelona cogitar um afastamento definitivo da equipe nacional. O titular da notícia, contudo, esconde a seguinte mensagem: “Após vitória contra uma grande seleção, Venezuela perde amistoso para um time do pátio da escola”. Notem que, além disso, o titular tira o protagonismo da seleção que venceu a partida, que foi a Catalunha. Portanto, por que não dar os méritos para os vencedores? Aqui vai uma sugestão: “Catalunha derrota Venezuela”. A seleção catalã conta com nomes mundialmente conhecidos, com atletas com passagem pelo Barcelona, e com presença em diversos times da Liga espanhola e outras ligas europeias.

O seguinte fragmento a ser comentado, na notícia do Globo Esporte, é “Não reconhecida pela Fifa, seleção da região autônoma espanhola conta com Piqué em campo”. Sim, a seleção catalã não tem o reconhecimento da FIFA. A sequência, porém, se refere à seleção da Catalunha como “uma seleção da região autônoma espanhola”. Nessa informação, nada de errado, mas limitar a Catalunha a uma “região autônoma espanhola” é limitar a identidade catalã. Dizer que a Catalunha é uma região autônoma da Espanha é, atualmente, uma verdade, mas a Catalunha tem sua própria federação de futebol, outras federações esportivas e seleções que competem internacionalmente. Logo, por que não descrever a equipe da Catalunha, no fragmento citado, desta forma: “Não reconhecida pela FIFA, seleção catalã (ou seleção da Catalunha) conta com Piqué em campo”? Preservem as identidades.

Os próximos pontos serão comentados em parágrafo único. O primeiro deles é: “É verdade que o time catalão contou com jogadores renomados – entre eles Piqué e Xavi”. Não, isso não é verdade. No domingo, dia 24 de março, Xavi publicou em seu Instagram que, por compromissos com seu clube no Qatar, se ausentaria do amistoso. Confiram, aqui, a notícia publicada pelo Aqui Catalunha. É minimamente curioso que a notícia considere uma “verdade” que Xavi tenha estado em campo. É provável que tenham visto outra partida. Ou será uma carência no sistema de buscas? Em seguida, este fragmento: “Antes da partida no estádio Montilivi, que recebeu quase 13 mil pessoas, uma cerimônia cheia de efeitos de luz (veja abaixo) celebrou o amistoso que visava chamar a atenção para crise político-econômica na Venezuela”. Em primeiro lugar, o amistoso não tinha esse objetivo. O objetivo era que a Catalunha dispusesse de outra oportunidade para jogar uma partida de futebol, depois de mais de dois anos. Os amistosos disputados pela Venezuela serviam como preparação para a Copa América deste ano, a ser disputada no Brasil. Em segundo lugar, é muito importante saber que um julgamento contra doze presos políticos e uma imparável repressão a direitos fundamentais na Catalunha, por parte do Estado espanhol, está acontecendo. Logo, será mesmo que, se o amistoso tivesse apenas um objetivo – político -, o foco seria a Venezuela? E em um estádio da Catalunha?

Em nenhuma passagem da notícia, houve um reconhecimento à vitória da Catalunha, mas apenas menções à “decepcionante” derrota da Venezuela. Uma vitória dos anfitriões, posta em segundo plano, de modo passivo. Qual é a razão? Um mero descuido no uso de certos recursos linguísticos, ou o quê?

ISTOÉ

A abordagem do triunfo catalão começa assim: “Três dias depois de surpreender o futebol mundial ao vencer a Argentina de Lionel Messi por 3 a 1, a seleção da Venezuela perdeu para um combinado da Catalunha, nesta segunda-feira, em Girona. O jogo não é oficial pois a Uefa e a Fifa não reconhecem o time catalão”. Comecemos pelo fragmento “a seleção da Venezuela perdeu para um combinado da Catalunha”. Por aqui, entende-se que a Venezuela tem uma seleção, e a Catalunha, por sua vez, um “combinado”. Colossal engano e irresponsabilidade. A Catalunha tem uma seleção, com uma equipe técnica profissional, e uma confederação. Caso o problema tenha sido uma falta de habilidade lexical, a fim de não repetirem o termo “seleção”, confiram estas sugestões: “a seleção da Venezuela perdeu para a catalã” ou “a seleção venezuelana perdeu para a da Catalunha” ou “a Venezuela perdeu para a Catalunha” [nenhum problema, pois sabe-se que estamos falando de uma competição esportiva, e subentende-se que estamos comentando um jogo entre equipes]. Além disso, o uso do artigo indefinido “um” traz uma pejoratividade inaceitável. “Um time qualquer, uma equipe qualquer, um grupinho”. Para fechar a observação sobre o trecho citado: a notícia informa que o jogo não é oficial, pois “a UEFA e a FIFA não reconhecem o time catalão”. Sim, a Catalunha não tem sua seleção oficialmente reconhecida por essas entidades, mas tampouco um amistoso é um compromisso oficial. Um amistoso é um amistoso, não um jogo de um torneio como a Copa das Confederações, Copa do Mundo, Eurocopa, Copa América, etc. Esses são torneios oficiais. Portanto, mais uma desqualificação para a informação dada.

Sigamos adiante com este fragmento: “Quando tudo levava para o empate no amistoso e para a decisão por pênaltis, Javi Puado surpreendeu a zaga adversária para garantir a vitória catalã nos acréscimos”. Falemos um pouco sobre as regras do futebol. O tempo normal de uma partida é de 90 minutos. O árbitro, com base nas perdas de tempo no jogo, acrescenta uns minutos. Isso é chamado tempo de acréscimo. O gol de Javi Puado aconteceu aos 89 minutos. Ou seja, seu gol não aconteceu nos acréscimos, mas sim no tempo normal da partida. Ainda neste parágrafo, vale a pena comentar este fragmento da notícia da ISTOÉ: “Quatro equipes espanholas, mais o Watford (Inglaterra), se negaram na quarta-feira passada a ceder seus jogadores, alegando risco deles se machucarem em uma partida não oficial, já que os catalães não estão filiados por nenhuma federação”. Novamente, em relação aos números. Não foram quatro as equipes espanholas que recusaram a cessão de jogadores para a seleção da Catalunha, mas sim, precisamente, três: Rayo Vallecano, Huesca e Valladolid. Além disso, é dito que “os catalães não estão filiados por nenhuma federação”. Não? Então o que representa a Federação Catalã de Futebol? Há mais observações: “alegando risco deles se machurarem”. Aqui, uma observação gramatical: o correto é “risco de eles se machucarem”. Não estamos falando de um risco pertencente aos jogadores, o que torna inadmissível a construção “risco deles se machucarem”. Um bom jornalismo também tem a ver com ter cuidados com o idioma utilizado.

Por último, um fragmento que denota uma preocupante falta de pesquisa: “A convocação da seleção da Catalunha foi anunciada pelo técnico Gerard López, do Valladolid, que é presidido pelo ex-atacante brasileiro Ronaldo Fenômeno. Três jogadores do seu próprio time – Jordi Masip, Sergio González e Rubén Alcaraz – não foram liberados. Os outros foram: Álex Moreno e Alberto García (Rayo Vallecano), Àlex Gallar e Enric Gallego (Huesca) e Gerard Moreno (Villarreal)”. Em primeiro lugar, Gerard López é treinador da Catalunha. Não comanda nenhuma outra equipe. O atual treinador do Valladolid é Sergio González. Não troquem os técnicos, dando emprego para um, e demitindo o outro. Em segundo lugar, Gerard Moreno, do Villarreal, não sofreu impedimento algum para disputar o amistoso. O motivo? Ele não foi convocado. Portanto, como vetar alguém que sequer foi convocado?

No final da notícia, é informado que “A seleção da Catalunha se reuniu pela primeira vez em 1905”. Não. O primeiro jogo da história da seleção catalã aconteceu em 6 de abril de 1904. Os detalhes podem ser conferidos aqui.

Gazeta Esportiva

A primeira informação do Gazeta Esportiva a ser destacada é esta: “a equipe comandada por Rafael Dudamel perdeu por 2 a 1 para a seleção local, que representa a região que tentou emancipação da Espanha”. Tratar a Catalunha como “região que tentou emancipação da Espanha” é, no mínimo, um ato desrespeitoso. A Catalunha é muito mais do que essa descrição. Além disso, não é que a Catalunha “tenha tentado a emancipação”: a Catalunha está caminhando para sua independência, não parou após tentar, e tem enfrentado contínuas séries de repressões por parte do Estado espanhol. Basta acompanharem as notícias publicadas no portal Aqui Catalunha, e se darão conta de que a descrição posta é curta e errônea.

Segundo ponto para análise: “Após vencer a Argentina na volta de Lionel Messi com contundência, a seleção venezuelana demonstrou um futebol pragmático e apático na primeira etapa, terminada sem gols. Contando com nomes renomados como Xavier Hernández e Gerard Piqué, a Catalunha abriu o placar aos oito minutos da segunda etapa, com Bojan Krkic, revelação do Barcelona que aos 28 anos ainda não atingiu o estágio previsto pelos espanhóis no início da carreira”. Vamos por fragmentos. O primeiro deles é puramente semântico. No início, é dito: “Após vencer a Argentina na volta de Lionel Messi com contundência”. Seria mais elegante uma construção como “Após vencer com contundência a Argentina, na volta de Lionel Messi, …”. Está claro que a palavra “contundência” se refere ao resultado, mas ocorre ambiguidade no uso de “contundência”. O que foi contundente? A vitória da Venezuela ou a volta de Messi? Ainda nesse fragmento, Gazeta Esportiva informa que a seleção catalã “contou com nomes renomados como Xavier Hernández e Gerard Piqué”. Novamente, é preciso dizer que Xavi (nome pelo qual mais é conhecido o jogador, e não “Xavier”) não esteve em Girona. Depois, a notícia diz, desta forma: “Bojan Krkic, revelação do Barcelona que, aos 28 anos, ainda não atingiu o estágio previsto…”. É verdade que o citado atacante não correspondeu às expectativas, mas é preciso mencionar a equipe em que atualmente joga. No trecho, apenas o FC Barcelona foi citado. Um leitor que não acompanhe o futebol europeu entenderia que Bojan ainda é um jogador do Barcelona, e não conseguiu atingir o estágio esperado. Apenas como complemento: Bojan, atualmente, é jogador do Stoke City, da segunda divisão inglesa.

Gazeta Esportiva, tal qual Globo Esporte, não valoriza a vitória catalã, mas sim a derrota “surpreendente” da Venezuela. Por qual motivo? E, como Globo Esporte, citando a Argentina em um contexto que não é o mais apropriado, pois o protagonista da notícia deveria ser a seleção da Catalunha, a vencedora da partida.

Considerações finais

Esta carta não tem por objetivo atacar as três mídias mencionadas. Citar Albert Camus nos primeiros parágrafos não foi um acaso, tampouco um requinte. O Aqui Catalunha é muito jovem, mas é guiado por ideias que o levam a ser trabalhado de forma rigorosa, milimétrica, comprometida com a informação bem dada e pesquisada. Esta carta também é uma oportunidade para que mais leitores conheçam a Catalunha, com tudo que há e acontece no território. Não é em nome da Catalunha que este editorial chegará aos redatores de ISTOÉ, Globo Esporte e Gazeta Esportiva: é em nome do jornalismo bem feito. E como ele é bem feito? Coisas simples: pesquisa detalhada, capricho e correção na redação, e paixão por informar bem, sem pressa. São nessas coisas que o Aqui Catalunha acredita, coisas que esperamos dos maiores veículos de comunicação do Brasil.

 


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